pequena colecção de esquecimentos
peça de teatro
2025
Este espetáculo reúne esquecimentos, memórias que uma mulher deixou para trás: sonhos, razões, vontades, imagens, gestos, detalhes e futuros.Entre restos e vestígios vamos recolhendo e recompondo os seus esquecimentos e memórias, descobrindo a vida que ela própria quer esquecer.
Peça escrita para o Grupo de Teatro Amador de Monção, com estreia no festival FITAVALE 2025, das Comédias do Minho
criação CHEILA PEREIRA / texto MATILDE REAL / composição musical e interpretação ao vivo RITA BARBOSA / sonoplastia ANDRÉ GIGANTE / tratamento de imagem para palco CLÁUDIO VIDAL / desenho de luz VASCO FERREIRA / interpretação CELINE GONÇALVES, FRANCISCA, INÁCIA BARTOLOMEU, JOSÉ LUÍS DIAS, JULIANA FERNANDES, MARIA DOS ANJOS PALHARES, MARIA DE LOURDES GONÇALVES, PAULO PEREIRA CAMPOS, PIEDADE COELHO, REGINA ALÉM, TERESA SANTOS, TITA PINHEIRO
Não me lembro de nada sobre quem foi. E talvez não seja importante. Não me lembro do seu nome, mas assentava-lhe e era lindo. Talvez começasse com T, ou L, ou J, ou A. Talvez fosse Helena, ou Eva. Não me lembro da entoação subida que dava ao fim de cada frase. Não me lembro de nada, nem de que tinha uma forma sua de dizer "Pois é, pois é". Não me lembro do momento em que me deu a mão para atravessar a estrada. Não me lembro se tinha cabelo comprido, que eu só via na altura de ir para a cama, quando ela o soltava. Não me lembro do seu casaco vermelho. Não me lembro de a ver selar a porta do forno. Não me lembro se sabia ler. Não me lembro se queria morrer de velhinha. Não me lembro de falar com ela sobre o diabo. Não me lembro de ter nascido. Mas nasceu. Será que nasceu? Ou fomos nós? Ela nasceu. Também não me lembro de ouvir o contrário. Nunca ouvi dizer que não tinha nascido. Mas não me lembro da família. Não me lembro se tinha um olhar meigo e sempre sereno, como a via fazer quando olhava para mim. Não me lembro se dizia poemas, nem dos poemas que dizia. Ela dizia e esquecia poemas. Ela esquecia poemas para que pudessem nascer de uma vez por todas. E os poemas esqueciam-na de volta.